II

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Tic. Tac. Vinte minutos. Tudo nessa cidade leva vinte minutos. Menos os vinte minutos. Os vinte minutos geralmente levam uma hora inteira. Levei uma hora e vinte minutos para ter certeza disso; embasamento empírico é a melhor das constatações, embora eu não esteja lá muito certo. Nós costumamos brincar que o princípio da incerteza é o princípio da vida; logo, a vida inicia quando inicia a dúvida. Mas não tenho certeza sobre isso. Nós apenas nos limitamos a rir esparramados numa cama boa com colchão ruim; eu a fumar cigarros avulsos e ela a esfregar a pele clara pela minha não tão clara, eriçando os pelos dos meus braços, num compasso de tercina de Villa-Lobos, em outras horas de Beethoven. A fumaça do cigarro se confunde com a fumaça transparente, mimetizadora de fantasmas e entes vapóreos, que sai da boca quando bocejo, essa possibilitada pelo frio etéreo, aquela pela indústria do tabaco e pelo setor fumageiro. Eu lembro de uma casa verde, casa de esquina, com detalhes também em um verde um tanto mais forte (as venezianas, a porta) na minha cidade natal. Lembro agora que, sempre que passo por tal casa, meu cérebro ativa exatamente na mesma hora a lembrança de uma crítica que ouvi da boca de um estranho num café do centro de Porto Alegre sobre algum filme do Charlie Kaufman. Isso me intriga. A fumaça do cigarro com a fumaça do frio e o modo como o cérebro se ocupa de estruturar todas esses simulacros, relações e realidades. Qual seria então a relação intrínseca entre a casa verde e a crítica e o Kaufman? Me intriga a maneira como, enquanto bordo essas linhas, busco a relação entre criar relação entre tudo, quando na verdade nem sempre há. Somos uma inconsistência de dados. Porém sempre há o tudo e o sempre. Vivemos à luz e sombra do tudo e do sempre e das suas ausências, talvez resida aí a relação. Uma relação que dói e destrói e tira o sono, mas nem sempre mata, nem sempre sangra. Não sangra. Estanca. A verborragia, a prolixidade e a eloquência. Tudo estanca.

Fico feliz pois ela dormiu, e porque ela é quente. Tem o corpo quente como o inferno, mas não queima; pelo contrário, protege. Meço a felicidade da vida pelos seus seios, está tudo ali, praticamente intocável e intocado, puro e rijo e, ao mesmo tempo, cabe na palma da mão. E se não fosse puro, ainda assim seria rijo e caberia na palma da mão, a questão é essa. O que me vale é que, se não é puro, é doce. E tem o gosto de humanidade, gosto de epiderme quando beijo e quando lambo. Tem gosto imaginário de pêra ou de maçã, granulada, como areia doce que machuca o paladar e revigora e regozija a alma. O cigarro apaga no cinzeiro que repousa no parapeito da janela do lado da cama e eu adormeço triste pela metáfora bem construída que envolve a descrição das coisas e as descrições de Hemingway, usada num filme hollywoodiano superestimado.

Sobre o autor

Kauê Vargas Sitó, tenho 22 anos e sou natural de Alegrete-RS. Sou escritor, compositor, blogueiro, músico, pseuudoprogramador e entusiasta da web. Atualmente moro em Porto Alegre e estudo na UFRGS.

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