[leitura e produção textual] relato de uma emoção forte*

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* 1ª versão.

A primeira vez a gente nunca esquece. E não esquece mesmo! O ano era 2002, o mês era dezembro e eu desfrutava da meninice dos meus 12 anos. Costumava passar algumas semanas das minhas férias na casa dos meus tios, em Santiago. 

A cidade era pouca coisa mais atrativa que Alegrete, ou seja, nada de mais, mas era minha colônia de férias. Embora meus tios fossem – e ainda sejam – muito religiosos e severos, o meu primo – três anos mais velho que eu – era como um irmão que não tive. Além disso, a casa tinha piscina! 

Naquele ano, porém, o ambiente estava notadamente diferente. Meus tios precisavam viajar a negócio quase todo final de semana e a casa ficava livre. Entenda-se “livre” como “sem a supervisão de adultos”. 

Meu primo já havia me avisado que tinha uma supresinha para o fim de semana, pois desconfiava que eu nunca houvesse feito nada do gênero. E tinha razão. 

Ela, como ele descreveu, era linda, o corpo com curvas invejáveis, todos os caras queriam ela. Ela sempre vinha para as festinhas junto com os amigos do meu primo – mas apenas nos fins de semana. Por conta do seu jeito rebelde e descolado, meus tios a taxavam de má influência e deixavam bem claro: não queriam que a gente andasse com ela. De qualquer forma, não dei muita bola, ela não era para o meu bico. 

Foi na noite de sexta-feira que a vi pela primeira vez. Logo que saí do banho deparei-me com a casa quase cheia, luz baixa e música no rádio da sala. E lá no sofá estava ela, confortabilíssima. Era realmente linda, não sei se por natureza ou se a meia luz favorecia suas curvas. Fiquei boa parte da festa como sempre fico: na minha, quietinho, porém hipnotizado por um charme que emanava daquele corpo. Sentia, pela primeira vez, ciúmes daqueles que a olhavam, que a tocavam, que a admiravam e a elogiavam. Lembro que senti inveja da naturalidade com que a tratavam. Meu primo, por muitas vezes, a pegava pelo braço e passeava para lá e para cá com ela, como se quisesse me provocar. E eu, abostado, na minha. 

Lá pelas tantas creio que ele cansou-se e, ao me ver de olhos fixados nela, de boca aberta, como se a baba já fosse escorrer pela boca, veio até mim e revelou a tal surpresa. 

Com um sorrisinho malicioso apontou a cabeça na direção dela e me falou: 

- Aproveita que já tá tarde, pega ela e leva pro quarto. 

Um vermelhão instantâneo pintou o meu rosto e, apavorado, respondi: 

- Quê? Tá louco? 

- É, leva ela pro quarto, só vê se não faz muito barulho. – me disse, piscando o olho. 

Tirei coragem de onde não tinha, atravessei a sala, parei na frente dela e, sem dizer palavra alguma, conduzi-a por todo o caminho até o quarto. Entramos, fechei a porta, liguei o abajur – quase o derrubando do criado mudo -, apaguei a luz. Dei play no toca-fitas do meu primo (ele disse que ajudaria, não sabia bem o porquê), o Deep Purple respondeu no K7, Deus, eu estava apavorado, tinha receio de olhá-la. Mas, enfim, não devia ser tão difícil, era só ir lá e mandar ver, não é mesmo? 

Não era! Precisei tomar a iniciativa para não parecer inexperiente, embora fosse. Sem delicadeza alguma lhe tirei a roupa, ajustei tudo rapidamente, sentei na cama e ajeitei-a confortavelmente no colo. Ah, e era cada vez mais linda, se é que isso é possível. Eu só pensava “Kauê, tu é um cara de sorte, meio tapado, mas de sorte”. E tremia, tremia de vontade, tremia de nervosismo. Tremia tanto que tive medo de derrubá-la no chão. Como é agoniante ter tanta vontade e não saber o quê fazer ou como fazer. 

Passei a mão pelo seu corpo, achando que estava agradando. Ela ainda seguia mudinha. Mas eu já havia a visto com outros, tão alegre e falante, por que estaria agora se fazendo comigo? Cheguei a pensar que era tudo armação e que o silêncio era, enfim, proposital para me tirar para idiota. Já podia ver e ouvir meu primo e os amigos dele debochando de mim. Bem, eu sabia que eu era ruim nisso, mas eu devia mesmo era dar aula de como ser ruim. 

De repente, por sorte, apertei em algum lugar e ela gemeu descontroladamente. Me assustei, confesso, era novo naquilo, mas, poxa, acertei algo – e sozinho. Eu a tocava cada vez mais rápido e percebi que tinha ritmo, que ela gemia alto ou baixinho de acordo com a intensidade do movimento que eu fazia. Era tudo uma descoberta e eu já não conseguia me ver sem ela. Parecia que meu coração estava dançando chula no meu peito de tanto que batia. Me apaixonei em poucos segundos e a queria pro resto da vida. Eu suava, pela emoção, pelo esforço físico e pelo calor daquela noite de dezembro. 

Meus dedos já doíam e eu a arranhava, meio sem jeito. Senti que, com ela, poderia ser quem eu quisesse. Me sentia como se marcasse o gol da vitória aos 47 minutos do segundo tempo. Como se estivesse zerando Super Mario World do Super Nintendo sem morrer nem uma vezinha sequer. Enfim, me sentia o cara. Mas, ao mesmo tempo, tinha medo de ser igual à velhinha que restaurou a pintura da Igreja na Espanha, cheio das boas intenções, mas acabando por fazer tudo errado. 

Quando eu já estava no auge da emoção, ouvi barulho na porta e não pude acreditar quando vi o que vi assim que a porta se abriu. Meu tio parado na porta bufando de raiva, num vermelho cor de Tabasco, e meu primo logo atrás dele dando de ombros, com uma carinha de “não deu tempo de avisar”. Meu tio voltara pois esquecera uns papéis importantes. 

Eu, inexpressivo, de olhos arregalados, pensei que, de vergonha, meu coração saíra para dar uma volta, pois não o ouvia bater. Meu tio deu um passo à frente, arrancou o som da tomada, e eu ali, naquela situação sem ter como explicar, com aquele monumento no meu colo. Ele me olhou e com uma calma - daquelas que a gente sabe que tá ferrado – me disse: 

- Kauê, me responde agora! De onde tu tirou essa guitarra?

Sobre o autor

Kauê Vargas Sitó, tenho 22 anos e sou natural de Alegrete-RS. Sou escritor, compositor, blogueiro, músico, pseuudoprogramador e entusiasta da web. Atualmente moro em Porto Alegre e estudo na UFRGS.

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