IV

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13:57

Perceba a boniteza das coisas nelas mesmas: a pergunta se auto-responde, não? Em todo caso, se não concordares comigo, vamos construindo ambas, personagem e resposta, ao longo dessas linhas. Afinal, uma é espelho da outra.

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III

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13:56

Antes de saber quem era ou quem foi, é preciso saber o ser. E uma pergunta tão simplista conquanto complicada de se responder, agora torna-se ainda mais complicada e ainda mais básica. A pergunta está intimamente conectada ao saber humano, mas aplicada de uma maneira mal direcionada. Embora essa importância seja evidente, a resposta não é o centro dessa discussão que estamos adentrando. É imprescindível, antes de tudo, que a pergunta esteja certa. Sendo correta a pergunta, a resposta é fruto, assim como estas divagações. Então, se essa pergunta for a mais pertinente, quem era ela?

E com o questionamento flutuando na página, é necessário saber que sabedoria é transigência intransigente. É ser inflexível com relação à favorabilidade da necessidade da compreensão antes da crítica e da eventual acusação. E é por isso que eu não sou sábio. Eu entendo as pessoas pois as calculo. Calculo seus átomos, suas massas, sua idade, suas reações químicas, mas, ao mesmo tempo que as entendo e as calculo, as desentendo quando adentro o campo do ser, do desconhecido; o eu, o tu e o todos. O incalculável é o íntimo. Segundo Kafka, o que é vivo não comporta cálculo. O íntimo é aquilo que é inabarcável, invisível e essa incapacidade de mensurar leva à morte da minha sabedoria. Ou pelo menos à inexistência dela.

A expansividade do íntimo e sua respectiva espontaneidade torna-o, dessa forma, intangível e torna-me impotente. Apesar de ser capaz de calcular a matéria orgânica e tudo que a concerne, não tenho a capacidade de calcular a alma humana e tudo que a concerne. E entre sua matéria orgânica e sua alma e quimera, 



quem ela era?
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ria do saber, sabedoria

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18:47

(...)
quando horas são céus
e manhãs abafadas
ela é fel e risadas
me alimenta de horas
e de "vamos embora"
pois diríamos não
e o não é o pó
(...) Continuar lendo →

II

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12:54

Tic. Tac. Vinte minutos. Tudo nessa cidade leva vinte minutos. Menos os vinte minutos. Os vinte minutos geralmente levam uma hora inteira. Levei uma hora e vinte minutos para ter certeza disso; embasamento empírico é a melhor das constatações, embora eu não esteja lá muito certo. Nós costumamos brincar que o princípio da incerteza é o princípio da vida; logo, a vida inicia quando inicia a dúvida. Mas não tenho certeza sobre isso. Nós apenas nos limitamos a rir esparramados numa cama boa com colchão ruim; eu a fumar cigarros avulsos e ela a esfregar a pele clara pela minha não tão clara, eriçando os pelos dos meus braços, num compasso de tercina de Villa-Lobos, em outras horas de Beethoven. A fumaça do cigarro se confunde com a fumaça transparente, mimetizadora de fantasmas e entes vapóreos, que sai da boca quando bocejo, essa possibilitada pelo frio etéreo, aquela pela indústria do tabaco e pelo setor fumageiro. Eu lembro de uma casa verde, casa de esquina, com detalhes também em um verde um tanto mais forte (as venezianas, a porta) na minha cidade natal. Lembro agora que, sempre que passo por tal casa, meu cérebro ativa exatamente na mesma hora a lembrança de uma crítica que ouvi da boca de um estranho num café do centro de Porto Alegre sobre algum filme do Charlie Kaufman. Isso me intriga. A fumaça do cigarro com a fumaça do frio e o modo como o cérebro se ocupa de estruturar todas esses simulacros, relações e realidades. Qual seria então a relação intrínseca entre a casa verde e a crítica e o Kaufman? Me intriga a maneira como, enquanto bordo essas linhas, busco a relação entre criar relação entre tudo, quando na verdade nem sempre há. Somos uma inconsistência de dados. Porém sempre há o tudo e o sempre. Vivemos à luz e sombra do tudo e do sempre e das suas ausências, talvez resida aí a relação. Uma relação que dói e destrói e tira o sono, mas nem sempre mata, nem sempre sangra. Não sangra. Estanca. A verborragia, a prolixidade e a eloquência. Tudo estanca.

Fico feliz pois ela dormiu, e porque ela é quente. Tem o corpo quente como o inferno, mas não queima; pelo contrário, protege. Meço a felicidade da vida pelos seus seios, está tudo ali, praticamente intocável e intocado, puro e rijo e, ao mesmo tempo, cabe na palma da mão. E se não fosse puro, ainda assim seria rijo e caberia na palma da mão, a questão é essa. O que me vale é que, se não é puro, é doce. E tem o gosto de humanidade, gosto de epiderme quando beijo e quando lambo. Tem gosto imaginário de pêra ou de maçã, granulada, como areia doce que machuca o paladar e revigora e regozija a alma. O cigarro apaga no cinzeiro que repousa no parapeito da janela do lado da cama e eu adormeço triste pela metáfora bem construída que envolve a descrição das coisas e as descrições de Hemingway, usada num filme hollywoodiano superestimado.
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I

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12:52

A utopia precedeu a necessidade, quando o vazio ainda era passado e o passado era vazio. Não houve primeiro o verbo, ou a luz, ou o som. O som e a luz eram secos de frequência, o verbo seco de morfemas. Houve a utopia, a necessidade e a insatisfação perene que rege todo átomo e os elementares fótons e glúons. Cada segundo existe pela empoeirada insatisfação, provavelmente, de algum povo mesopotâmico, que antes da sua necessidade de contar o tempo, acreditou que um porvir mais aceitável residiria, essencialmente, em uma maneira de explicar o apodrecer da matéria orgânica. E cada segundo existe, nesse contexto de análise, pela insatisfação do ponteiro do relógio, o qual é impelido para o seu porvir utópico pelo peso do pêndulo, pela energia potencial, trazendo a cada período uma nova possibilidade. O pêndulo, seu comprimento e a gravidade formam a tríade das boas-novas, anunciando a cada segundo um novo segundo. Fundem-se agindo como materialização do estranhamento ou, ainda, metamorfoseando-se nas crendices da hora cabal - a meia-noite -, o início e o fim do que começa e deixa de existir em uníssono: a hora da transcendência. E com o período único (e coletivo) do pêndulo a possibilidade de que algo pode ser diferente e possível. E assim a utopia. E assim a necessidade. E assim o porvir.
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Projeto de novela

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12:52

Hoje começo aqui minha tentativa de novela: "A felicidade é uma arma quente". Vou postando os capítulos assim que terminá-los.
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gramática do mundo

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18:31
O mundo é uma metáfora
onde ali é dêitico
onde ali é anáfora

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